O presidente do Sindicato dos Bancários da Bahia, Augusto Vasconcelos, se licencia do cargo a partir da próxima quinta-feira (7/6), para concorrer à vaga de deputado estadual nas eleições de outubro. Nesta entrevista para o jornal O Bancário, ele fala sobre as motivações para a candidatura, que recebeu uma moção de apoio, durante a Conferência Interestadual dos Bancários da Bahia e Sergipe, ocorrida em maio, em Salvador, quando ainda era um pré-candidato.

O Bancário: Primeiro, presidente, faça uma avaliação da atuação do Sindicato dos Bancários da Bahia nos últimos anos...

Augusto Vasconcelos: Temos trabalhado intensamente, de domingo a domingo. Interiorizamos a entidade, aperfeiçoamos a comunicação e tivemos avanço em todos os departamentos (saúde, esporte, convênios, cultura, gênero, combate ao racismo, jurídico, pessoal, colônia e patrimônio). O Sindicato se tornou mais dinâmico, moderno e participativo. Presente no dia a dia do trabalhador, conseguimos fazer a conexão das lutas específicas da categoria com as pautas mais amplas, como o enfrentamento às Reformas Trabalhista e da Previdência. Apesar das dificuldades da conjuntura, o Sindicato dos Bancários da Bahia segue como referência da classe trabalhadora.

O Bancário: A partir do dia 7 de junho, você é oficialmente pré-candidato a deputado estadual. O que os bancários podem esperar da sua atuação na Assembleia Legislativa?

Augusto Vasconcelos: Após inúmeros pedidos de colegas e lideranças de vários segmentos, topei o desafio de ser pré-candidato a deputado estadual. Trata-se de uma decisão que refleti muito, pois exige um sacrifício pessoal e familiar. Sinto muito a falta dos meus filhos, pois a agenda tem sido cada vez mais apertada, mas tenho certeza de que eles terão orgulho do pai. Faremos um mandato vinculado às lutas dos trabalhadores. Nosso gabinete será uma extensão dos movimentos sociais, uma trincheira em defesa dos mais pobres e contra toda forma de opressão. Minha mãe, oriunda da zona rural, é professora de escola pública, comecei minha militância no movimento estudantil com 16 anos de idade e me tornei professor Universitário há 12, por isso também tenho vínculos muito fortes com a causa da educação. As bandeiras do desenvolvimento econômico, geração de empregos, a defesa do consumidor, questões tributárias e o combate às desigualdades estão entre as prioridades. Tenho clareza de que a Bahia precisa resolver alguns gargalos. A ampliação da capacidade do Estado depende de investimentos em obras de infraestrutura, do fortalecimento da indústria como vetor de crescimento e o papel das universidades estaduais como polos de inovação tecnológica e desenvolvimento regional. Como se explica, por exemplo, o fato de que a arrecadação de ICMS no Oeste da Bahia é tão baixo, apesar da pujança da exportação de grãos. Não podemos nos contentar em produzir produtos primários, precisamos agregar valor, através de cadeias produtivas de beneficiamento. Levaremos adiante nosso projeto de segurança nos bancos, para combater o alto índice de explosões e assaltos nas agências. Por força da lei, terei que me licenciar da Presidência a partir do dia 7, mas não me afastarei das lutas do Sindicato. Continuarei atuando pelos nossos ideais.

O Bancário: Qual é a importância de ter um trabalhador na Assembleia e no Congresso Nacional?

Augusto Vasconcelos: A composição do Parlamento não reflete a maioria da sociedade, principalmente por causa da força da grana nas eleições. Está na hora de renovarmos a política com pessoas que têm uma trajetória de lutas. As elites econômicas colocam seus filhos e netos para assumirem a política, em uma lógica hereditária. Precisamos romper com isso. Os filhos do povo precisam ocupar o poder. Se tivéssemos mais trabalhadores na política, certamente medidas que atacam direitos, como a Reforma Trabalhista, não teriam sido aprovadas. O voto é uma importante arma para disputar os rumos do país!

O Bancário: O que fazer para vencer o cerco do capital, que tenta estrangular financeiramente a organização dos trabalhadores?

Augusto Vasconcelos: Criatividade, solidariedade de classe e trabalho redobrado. Todas as conquistas obtidas pela população tiveram participação decisiva dos sindicatos. Cada trabalhador deve se responsabilizar em manter a sobrevivência financeira das entidades, filiando-se ao Sindicato. O governo Temer tenta asfixiar as entidades sindicais para diminuir a capacidade de resistência às medidas impopulares. Não irão conseguir nos calar. O que nos move é a ideia de um país mais justo e seguiremos em busca desse objetivo.

O Bancário: Os bancários já estão em campanha salarial. O que esperar diante de uma conjuntura tão difícil, de perdas causadas pelas reforma trabalhista e a terceirização irrestrita? Como a categoria pode ajudar na atuação dos sindicatos durante as negociações com a Fenaban e o governo?

Augusto Vasconcelos: Teremos uma das campanhas mais difíceis dos últimos 20 anos. Desde os anos 90 não enfrentamos um cenário tão desfavorável. A categoria precisa mostrar força, participando das Assembleias e das mobilizações convocadas pelo Sindicato. Os bancos já anunciaram que pretendem cortar direitos, especialmente porque, com a Reforma Trabalhista, acabou o princípio da ultratividade, que estabelecia a renovação da Convenção Coletiva até que uma nova fosse assinada. A partir de 31 de agosto poderemos perder todos os direitos. Isso é muito grave. Acredito na força dos bancários para derrotarmos a ganância das empresas mais lucrativas do país. Com unidade, coragem e organização, vamos vencer!

O Bancário: Uma possível vitória das forças progressistas na eleição deste ano é suficiente para derrotar o golpismo?

Augusto Vasconcelos: Suficiente não, mas é um passo decisivo. Se conseguirmos formar maioria no Parlamento podemos revogar as medidas anti-povo de Temer. Precisamos atuar nas três frentes de acumulação de forças: a luta de ideias, os movimentos sociais e as eleições.

O Bancário: Você acredita na unidade dos setores democráticos?

Augusto Vasconcelos: Acredito que estamos mais próximos disso. Cresce a consciência de que sem uma ampla unidade dos setores democráticos e patrióticos seremos derrotados.

O Bancário: Em um cenário sem Lula, qual o melhor candidato para representar os interesses populares?

Augusto Vasconcelos: Apesar de continuar defendendo Lula Livre e o direito dele concorrer, minha pré-candidata à Presidência da República é a Manuela D’Ávila. Uma jovem de 37 anos, que tive a oportunidade de conhecer no movimento estudantil. Manu é inteligente, dedicada e tem uma história vinculada às nossas lutas. Apresenta um projeto nacional de desenvolvimento e está preparada para o desafio. Outras candidaturas tenho grande simpatia como as de Ciro Gomes e Guilherme Boulos. Precisamos nos unir para derrotar as elites econômicas.

Fonte: Seeb Bahia.