Quatro em cada dez mulheres no Brasil já abriram mão de uma vaga de emprego ou oportunidade profissional por dificuldades de deslocamento, segundo a pesquisa “O Direito de Ir, Vir e Viver”, realizada pela consultoria Indique em parceria com a Think Eva e a 99 Pop. Entre os principais obstáculos estão a insegurança ou violência, apontada por 32% das entrevistadas, a falta de dinheiro (22%), a precariedade do transporte público (15%) e a distância (14%). O levantamento ouviu 564 mulheres entre 18 e 60 anos em 83 cidades brasileiras e revela como a violência e a falta de segurança continuam impondo limites concretos à liberdade de circulação feminina.
Os impactos ultrapassam o mercado de trabalho e chegam à educação e à vida social. Uma em cada cinco entrevistadas já desistiu de uma capacitação ou faculdade por dificuldades de deslocamento, enquanto outras 54% deixaram de comparecer a compromissos profissionais ou recusaram convites de trabalho. O medo também modifica a rotina: 87% evitam determinados bairros ou regiões, 73% planejam os horários de saída e 63% deixaram de utilizar algum meio de transporte. O cenário é ainda mais grave diante dos relatos de assédio sexual: 89% das entrevistadas afirmaram já ter passado por esse tipo de violência em pelo menos uma modalidade de deslocamento, principalmente em ônibus, a pé e em metrôs ou trens.
A desigualdade econômica torna esse problema ainda mais difícil de enfrentar. Enquanto 80,3% das mulheres de baixa renda utilizam ônibus regularmente, apenas 8,3% delas têm acesso a carro próprio, contra 40,6% entre as mulheres de maior renda. Para quem vive em periferias ou regiões com infraestrutura precária, até mesmo o transporte por aplicativo, utilizado por 80% das entrevistadas como alternativa, pode pesar no orçamento. Os números mostram que a violência não apenas ameaça a segurança das mulheres, mas também restringe escolhas, oportunidades e direitos básicos. Quando uma mulher precisa mudar seus horários, evitar lugares, recusar empregos ou desistir dos estudos por medo de ser assediada ou vítima de violência, o problema deixa de ser apenas de mobilidade e passa a revelar uma falha grave na segurança e na estrutura das cidades.
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